Aprender a ser árvore

Do Norte a Sul de Moçambique há uma árvore pequena, tão singela que parece dispensável. Retirássemos, contudo, esta planta da paisagem e o nosso mundo ficava mais pequeno e menos nosso. Porque ela faz parte do cenário da nossa alma, deitou raízes nos mais longínquos antigamentes. Tornou-se História, ramificação do próprio tempo moçambicano.

Essa árvore é o Himbe. Seu nome mais sério, mais de salão, é Garcinia livingstonei. Em diferentes regiões de Moçambique, ela vai ganhando outros nomes: Bimbi, Himbi, Muhimbi, Meto, Veto, Ntabaza, Petapelo, Mutotola. Mas ela é sempre o mesmo singelo e modesto ser, marcando imprescindível presença junto das machambas. Como se fosse moldura do nosso espaço humanizado. Chamemos-lhe, apenas por facilidade, de Himbe.

Ora, uma simples árvore, dirão alguns, mais urbanos. Mas para um outro olhar, mais atento, nenhuma árvore é apenas um ser vivo, apenas uma espécie biológica. Toda a árvore é um ser múltiplo, portador de identidade e criador não apenas de novos seres mas da própria Vida.

O Himbe é, em muitas regiões, uma árvore sagrada. Que contas faz a tradição para proteger esta espécie ?
Simplesmente, porque os seus frutos são valiosos, com o seu incomparável sabor agridoce ? Porque deles se produz uma muito apreciada bebida ? Essa razão utilitária é defendida por alguns cientistas. Mas existirão outras razões: o Himbe é um símbolo. De quê ? Da capacidade de regeneração, da habilidade de superar a ferida e fazer da morte simples aparência. O Himbe é uma das pioneiras a surgir depois do desmatamento das florestas primárias. Após a destruição das queimadas, o Himbe é uma das primeiras árvores a ressurgir. Assim, a pequena fruteira é uma espécie de bandeira, uma vitória da esperança e da vontade de renascer.

A Garcinia tem dois sexos. Para que a árvore-fêmea produza, é preciso que exista um macho nas redondezas.
O Himbe conhece o preço do isolamento. A árvore é uma escola de relacionamentos. Uma aprendizagem de um mundo em que sabemos da força de estarmos juntos.

Não bastassem estas razões: as folhas do Himbe e as raízes tem propriedades medicinais comprovadas. Dali se extrai um antibiótico eficaz. E agora se acredita que, na constituição do Himbe, há um componente químico que pode inibir os efeitos da infecção do HIV.

A Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) não podia ter escolhido outro emblema. O Himbe corporiza aquilo que são os ideais e a filosofia da organização. A capacidade de despertar forças nos outros, o engenho de criar raízes fundas de tenacidade, a vontade de renascer mesmo quando tudo nos convida ao desanimo, tudo isso está presente na árvore e na Fundação. A capacidade de curar as feridas da nossa condição histórica, a habilidade de gerar frutos que resistem no tempo, a inteligência de ser escola e ser proposta de vida, tudo isso a Fundação partilha com a pequena fruteira.

O Himbe nunca seca, a folha guarda para sempre a verdura. A flor do Himbe é generosa e oferece-se como néctar. Um pequeno ramo abençoa os casamentos tradicionais. É usada para vedar os recintos das casas, prestando serviços de protecção e segurança das famílias. Os seus frutos alaranjados são dos primeiros a brotarem no Verão. Funcionam, assim, um prenúncio de abundância num universo marcado pelas intempéries.
Um pequeno rebento é oferecido às noivas, traduzindo a longevidade da pequena fruteira.
Todos estes atributos do Himbe são pertença do ideário da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade.
A recusa do esmorecimento, a perseverança, o respeito profundo pelas culturas e universos míticos, a aposta a longo prazo contra as adversidades: estas são as qualidades partilhadas entre uma criatura da terra e uma obra de gente determinada.

Não existe dúvida: esta FDC aprendeu a ser árvore. Aprendeu a ser Himbe

Mia Couto

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